olhar versus sorriso
Sempre gostei de observar o mundo à minha volta, sobretudo as pessoas, e desde que comecei a entusiasmar-me pela actividade do sketching noto claramente que tudo começa no olhar.
Olhar com olhos de ver é um requisito necessário para melhor registar no papel e guardar na memória.
Olhar com olhos de ver carece de atenção plena, e essa concentração meditativa tem um efeito terapêutico, zen.
Também é o olhar que distingue o fotógrafo.
O olhar da Gioconda, tal como o sorriso, é especial. Os seus olhos fixam os nossos mas, ao invés de transmitir qualquer tensão, parecem compassivos.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

O Tapete está na Rua, em Arraiolos

Foi um impulso desafiante que me fez decidir ir sozinha a um encontro de Urban Sketchers sem conhecer ninguém à partida.
Mais tarde soube que um simpático casal de gente gira dos FS 2'' também ia participar mas isso não influenciou a minha decisão de ir em expedição independente e solitária.
Apesar de alguns reveses no plano inicial, mantive a minha vontade inabalável e fui.
O encontro foi organizado pelos Évora Sketchers, um grupo muito dinâmico que me acolheu de modo bem alentejano que tanto aprecio. Obrigada!





O encontro teve o apoio da Câmara Municipal de Arraiolos e inseriu-se nas actividades e festas da vila e do evento promocional "O Tapete está na Rua", literalmente.







Também foi interessante visitar o Centro Interpretativo do Tapete de Arraiolos situado num edifício recentemente restaurado mas com vários elementos antigos, exteriores e interiores, bem preservados.



No final da tarde houve partilha dos Diários Gráficos e consta que estão a pensar organizar uma exposição dos nossos sketches.




sexta-feira, 17 de junho de 2016

Outro fim de tarde, outra capelinha

Isto de visitar as capelinhas é uma expressão bem portuguesa e geralmente não tem o significado literal.

Fiz-me à estrada sozinha com aquela sensação libertadora de ir para onde me apetecesse.
Só tinha a recomendação de procurar um moinho de água numa determinada estrada. 
Se há coisa que me inspira é a água. 
Saudades do mar...






Depois de tirar bastantes fotografias de vários ângulos, meti-me outra vez no carro e segui sem destino determinado.
Quando vi uma tabuleta a indicar Tranvancinha, numa estrada à esquerda e a subir, não hesitei.
Esta zona é feita de montes e vales. 
As elevações têm boas vistas e são elas próprias, quase sempre, por razões de estratégia geográfica desde os antepassados, sítios interessantes.
Chegada à vila que pelos vistos tem apenas cerca de quinhentos habitantes, percorri ruas e ruelas, vi casas pequenas e grandes, velhas e novas, incaracterísticas, até que cheguei a um pequeno largo onde se situava um edifício de arquitectura clássica da região, um certo ar senhorial, parei e fiquei a observar os pormenores.
Nisto surge ao portão um senhor já com alguma idade que deve ter pensado que eu andava perdida, talvez, e acenando fez menção de vir ter comigo.
Daria uma bela converseta mas eu queria mesmo era desenhar.
Sorri, acenei e arranquei por outra rua. 
Segui uma direcção de miradouro que não encontrei, apenas casas de granito completamente em ruínas num ponto alto mas pouco interessante.
Não quis voltar para trás e continuei pela estrada de terra batida que segundo o meu sentido de orientação, daria a volta à vila e não me enganei. Fui desembocar na estrada principal, na entrada oposta de Tranvancinha, e vislumbrei à minha esquerda, em cima de um penedo, a capela que eu ia desenhar.
Dei a volta e estacionei por detrás num terreno aberto onde pelos vistos se faz anualmente a Feira dos Santos em 1 de Novembro, conhecida na região pela Feira dos Torresmos.

Heis a Capela da Senhora das Virtudes.



Desenhei-a sentada nesta lage de granito e se não estivesse com frio e a anoitecer tinha feito mais sketches porque, apesar das linhas simples todos os ângulos são desafiantes.







quinta-feira, 16 de junho de 2016

Passeio no sopé da Serra da Estrela

Desta vez saí acompanhada pela minha prima e com o trajecto já definido.

Subimos a Serra pelo lado de São Romão.
Fomos até às piscinas fluviais da Lapa dos Dinheiros.
A época balnear parece que só começa no final do mês ou mesmo em Julho, não sei bem, mas a piscina estava praticamente vazia pois foram retiradas as placas de madeira que formam um dique e conservam a água, bem fresca por sinal, na zona mais alta.

Já aqui tinha estado no ano passado em actividades fotográficas organizadas pelos Festivais do Bosque como podem ver aqui.
Desta vez fui mesmo para desenhar. 




Felizmente a minha prima levou um livro para ler enquanto eu me dedicava ao sketching porque uma das questões importantes desta actividade é que ela é solitária e tem um ritmo difícil de partilhar com quem não a pratica e quer seguir viagem mais rápido.

Antes já tínhamos ido a uma das primeiras Centrais Hidroeléctricas do País, construída no início do século XX. 
O edifício está fechado e já não é habitado visto que todo o sistema funciona agora por automatismos e controle informático.




Depois ela lembrou-se de irmos beber um chá e petiscar qualquer coisa ao Museu do Pão em Seia que tem um café com uma esplanada e uma vista fabulosa para o vale virado a poente mas já estava fechado, encerra às 18 horas durante a semana...

Acabámos por subir mais um pouco à procura de algum sítio interessante mas já estava tudo fechado. 



Parámos para ver as vistas e junto ao Cabeço das Fragas descobrimos uma pequena capela com um nome estranho.
É sobejamente sabido que há por aqui muito emigrante em França mas será esta uma santa de devoção francesa?





quarta-feira, 15 de junho de 2016

Visitar capelinhas

Assim que parou de chover e o sol voltou a brilhar, uns dias depois do sketching em Nelas, aproveitei os fins de tarde para passear pelas redondezas desta beira interior em busca de inspiração, preencher o diário gráfico e praticar as perspectivas.

No centro da Vila Franca da Beira desenhei o topo da capela.



Segui para o Ervedal da Beira onde rumei logo a um sítio onde já me tinham levado há alguns anos.
Subi a estreita Rua da Nossa Senhora da Boa Viagem e cheguei à capela com o mesmo nome suponho, pois não tem nenhuma inscrição ou tabuleta.
Aí em cima, sentada num murete, fui desenhando enquanto era invadida por uma sensação de paz.
O calor aconchegante do sol já baixo. 
O silêncio envolvente harmonizado apenas com os sons da natureza, os pássaros, as cigarras.
O cheiro da terra a evaporar as humidades acumuladas e das ervas frescas.
A paisagem em redor, aberta, verde, serra ao fundo, campo até onde a vista alcança, tanto espaço...
Tudo se conjugava para meu deleite e bem estar.



Até o desenho ficou com melhor perspectiva.







quinta-feira, 2 de junho de 2016

Perspectivas loucas - sketching em Nelas

Nelas é uma cidade da beira alta a vinte e poucos quilómetros de Viseu cuja importância relativa se deve apenas à estação de comboios e à linha que a liga ao resto do País pela rede ferroviária.

Na 5ª. feira passada, aproveitando a tarde de um dia que voltou a ser feriado, o dia de Corpo de Deus, andei no centro de Nelas a rabiscar uns edifícios que me pareceram interessantes.





Para quem, até há bem poucos meses, ia aos encontros dos Foto&Sketchers 2´´ e apenas fotografava porque dizia que não sabia desenhar, tenho-me surpreendido a mim mesma com os resultados da prática e da observação crítica dos meus desenhos.

Das várias dificuldades que sinto destacam-se claramente as perspectivas, as proporções e a tendência para os desenhos grandes que não cabem nas folhas ou que no final, por causa da dimensão, não ficam equilibrados ou harmoniosos.

Desta vez tive uma luta renhida com as perspectivas.





Que culminaram nesta perspectiva ainda mais estranha. 
Depois de várias tentativas de desenhar este edifício que não me agradaram,



decidi desenhar apenas o pormenor da varanda e estava toda animada com o efeito quando percebi que o estava a fazer como se o estivesse a ver de cima...



É evidente que não sou uma sketcher voadora por isso relevem estas perspectivas loucas.
Da próxima ficará melhor.



sábado, 28 de maio de 2016

Mensagem

A palavra Mensagem, segundo o poeta, deriva anagramaticamente do sintagma latino "mens agitat molem" - é o espírito que move a matéria.

Que o meu me guie para longe deste descontentamento.


Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura,
Nada na alma lhe diz
Mais do que a lição da raiz _
Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem 
Pela visão que a alma tem!

(...)

Fernando Pessoa - Mensagem 
Terceira Parte - O Encoberto
I . Os Symbolos
O Quinto Império 21.2.1933




Pity the stay-at-home,
Happy at his hearth,
Without a dream, lifting high,
To stir his embers till they burn
In that hearth he must abandon!

Pity the happy-go-lucky!
He lives because life goes on.
Nothing at heart will tell him
More than that root lesson _
To make of his life his tomb.

Age after age disappears,
Filling time with ages to come.
Being man is being discontent.
Let blind forces be overcome
By the visionary soul!

(...)

Fernando Pessoa - Message
Third Part - The Hidden One
I . The Symbols
The Fifth Empire  21.2.1993


quinta-feira, 19 de maio de 2016

Sketching nas margens do Tejo

Na manhã do sábado passado realizou-se um Workshop de Introdução ao Diário Gráfico para iniciantes na Biblioteca da Trafaria, onde o Tejo se faz ao Mar.
Dirigido sobretudo à comunidade local, os orientadores Henrique Vogado e Rita Caré procuraram incutir o espírito Urban Sketcher nos participantes.
Houve uma enorme adesão a esta iniciativa e consta que foi muito interessante e motivador.

O programa da tarde foi um encontro livre de diários gráficos pela Trafaria sem limite de adesões nem desafios específicos e, apesar do frio e do vento, participaram bastantes Urban Sketchers aos quais me juntei animadamente.

Cheguei perto da Torre de Belém no final da manhã e fui andando e fotografando até chegar ao cais de embarque.



Como só há barcos de hora a hora, enquanto esperávamos fiz o meu primeiro rabisco do dia.



O barco sai do Cais de Belém e vai para a Trafaria com uma primeira paragem em Porto Brandão.




Fui "apanhada" em plena actividade dos rabiscos:



E aqui os resultados finais:




No fim juntámo-nos todos, como de costume, para partilhar os sketchs, os cadernos, opiniões e ideias.
Gente gira, simpática, criativa e talentosa, cada um à sua maneira.
Cada vez gosto mais destes convívios.

Apanhámos o penúltimo barco do dia para regressar à nossa margem.





Ao fim da tarde o azul do céu insinuava-se timidamente por entre as nuvens mas o sol já descia na direcção da linha do horizonte.
Ainda assim, parei a meio do caminho para desenhar o Padrão dos Descobrimentos e a vista do rio Tejo até às estruturas e guindastes que tinha rabiscado na outra margem.




No fim, tive de acelerar o passo para estimular o aquecimento do meu corpo pouco agasalhado para esta primavera outonal.