olhar versus sorriso
Sempre gostei de observar o mundo à minha volta, sobretudo as pessoas, e desde que comecei a entusiasmar-me pela actividade do sketching noto claramente que tudo começa no olhar.
Olhar com olhos de ver é um requisito necessário para melhor registar no papel e guardar na memória.
Olhar com olhos de ver carece de atenção plena, e essa concentração meditativa tem um efeito terapêutico, zen.
Também é o olhar que distingue o fotógrafo.
O olhar da Gioconda, tal como o sorriso, é especial. Os seus olhos fixam os nossos mas, ao invés de transmitir qualquer tensão, parecem compassivos.

sábado, 30 de julho de 2016

Carrapatelo - o dia de regresso

Domingo, último dia do fim de semana viajado, acordei cedo mas sem pressas.
Depois do pequeno almoço saí de caderno na mão para explorar as redondezas.

Aqui sim, há casas típicas que são uma inspiração para os rabiscos.



Também há outras casas atípicas, mas não merecem nem uma fotografia.







sexta-feira, 29 de julho de 2016

Amareleja ao fim da tarde - ainda muito quente

O calor é o tema de conversa quando se fala da Amareleja.
Até a TVI andou por lá nesse dia a entrevistar as pessoas sobre essa "problemática" como se fosse notícia.
Mas estava calor, não há dúvida. 
Às 18 horas estavam, oficialmente, 39 graus centígrados. 
Não me lembro de ter bebido tantos litros de água e, durante todo o dia, só fiz um xi-xi antes de almoço e outro antes de jantar. Impressionantes as reacções do corpo para não desidratar...

Reunidos novamente na Praça da República fomos agraciados com o característico Cante Alentejano do Grupo Coral da Sociedade Recreativa Amaralejense e logo de seguida do Grupo Coral da Casa do Povo da Amareleja.

Só consegui desenhar o primeiro grupo e enquanto o segundo cantava as suas modas ainda fui completando o desenho visto os homens terem ficado por ali nas redondezas.






E a famosa torre do relógio que não dá horas certas, mas destaca-se na praça e em toda a vila.



Os sketchers que regressavam a Lisboa e arredores estavam com alguma pressa mas os de Évora nem por isso, de modo que ainda fomos beber mais qualquer coisa fresca e dar mais dois dedos de conversa que o convívio é muito importante nestes encontros. 

Acabei por jantar por ali mesmo, na Adega Piteira, umas costeletas de borrego grelhadas com muita salada mista bem temperada e algumas batatas fritas genuínas. E como já tinha prevaricado na dieta, regalei-me com um delicioso pudim de ovos também caseiro.


Da Amareleja fica-me a memória do calor abrasador bem como da forma calorosa que as suas gentes têm de receber os visitantes.

Pelas estradas escuros e sob um céu estrelado, regressei à Quinta de São Jorge na estrada de Carrapatelo.
Foi uma viagem calma graças ao provecto mas fiável carrinho que passou os 200.000 quilómetros neste trajecto continuando a somar, e ao bendito GPS que não me deixa hesitar nos cruzamentos.
Já no monte, sentada numa das cadeiras à volta da piscina, ainda estive a observar as estrelas e a apreciar os sons e cheiros da noite de verão alentejano, antes de me recolher para o merecido descanso.



quinta-feira, 28 de julho de 2016

Amareleja - a vila mais quente do Alentejo

No sábado fui ao 40º. Encontro dos Évora Sketchers na Amareleja.

Saí do alojamento, o mais cedo possível com o pequeno almoço tomado, e fiz o percurso sem paragens apesar da paisagem e dos lagos formados pelo Alqueva merecerem belas fotografias. 

Cheguei mesmo em cima da hora marcada.
Depois de um café saboroso, das apresentações e saudações, das sugestões do presidente da Junta de Freguesia, cada um foi desenhar o que mais lhe apeteceu.

Comprei um chapéu de palha à ceifeira, numa loja tipo drogaria à moda antiga que vende de tudo e mais alguma coisa. Bem castiça!
Andei a deambular pelas ruas, passei pela casa da palmeira, um dos ex-libris da terra segundo o presidente José António Valadas, mas não senti o apelo do desenho...
Deambulando por aquelas ruas verifiquei que a maior parte das casas típicas, piso térreo com uma porta entre duas janelas, foram restauradas, ou melhor, remodeladas e as faixas azul ou amarelo ocre em paredes caiadas foram substituídas por azulejos ou mármores em paredes cremes ou coisa que o valha, lamentável...
A meio da manhã já estava a ficar bastante calor e acabei por me instalar à sombra, numa mesa de pedra de um pequeno parque de merendas com grandes árvores frondosas, junto a uma escola infantil. 
Rabisquei e aguarelei o primeiro desenho do dia, só para aquecer...

Voltei à Praça da República, o ponto de encontro, a fim de seguirmos juntos para o Baldio onde seria servido o almoço.
Primeiro petiscámos uns maravilhosos queijos de cabra, nas variedades fresco e curado, um tipo de paio e umas fatias finíssimas de papada de porco, tudo com o delicioso pão alentejano. 
Depois comi o primeiro gaspacho da minha vida a acompanhar sardinhas e carapaus assados. Rematámos com melancia bem fresca. 
Muito calor, boa conversa e vários sketchs em cima da mesa.

Embrenhei-me no parque das merendas e, sentada em cima de uma mesa de pedra, à sombra, perto do pequeno lago formado por uma represa, finalmente fiz um desenho capaz.


No fim, ainda com as tralhas todas espalhadas pela mesa, pus-me a filmar um rebanho de cabras que passava por ali a saltitar quando de repente um dos cães, enorme, me aparece mesmo à frente da cara e me prega um susto que me faz saltar para cima da mesa. 
Sem esforço nenhum o cão salta atrás de mim e eu em pânico a apanhar os cadernos, os pincéis, o copo de água e as aguarelas enquanto o tentava enxotar como se fosse uma galinha - Chô! Chô!
Só depois vi que não tinha parado de filmar e ficou tudo gravado. Hilariante!

Para voltar ao centro da Amareleja apanhei boleia do senhor Valadas que fez questão de me ir mostrar a Central Solar Fotovoltaica, a maior do mundo com sistema de orientação dos painéis solares, e os canteiros que a Junta tem colocado em algumas ruas.



No braseiro da tarde, antes de recolher a um café com ar condicionado e águas frescas, juntei-me a alguns sketchers para desenhar a Igreja Matriz.





terça-feira, 26 de julho de 2016

Visão noturna

Saí de Monsaraz noite cerrada.
Um ventinho refrescante e uma temperatura agradável para conduzir de janelas abertas com os cheiros do campo a inebriarem-me.

Conforme ia descendo o monte, onde lá no alto se situa a vila, ia apreciando os jogos de luz e sombras, as muralhas e as casas iluminadas.

Já no vale e a uma certa distância, tive a visão mágica.



Numa estrada escura onde não me atrevi a parar, nem para tirar uma fotografia que evidentemente, sem uma máquina com lente especial, ficaria muito aquém do que os meus olhos viam, retive a imagem na minha cabeça e assim que cheguei ao quarto passei-a para o caderno.

Talvez seja uma ilustração distorcida pela minha memória, todavia revela o encanto que me inspirou.


segunda-feira, 25 de julho de 2016

Monsaraz - a primeira noite

Estava um dia bastante quente e adivinhava-se um fim de semana de intenso calor. 
Ideal para viajar pelo meu querido Alentejo.

Parti a meio da tarde e a viagem decorreu calmamente. 
Depois de fazer o check-in na Quinta de São Jorge, rumei à vila de Monsaraz situada a poucos quilómetros dali.
A ideia era apanhar o pôr do sol visto de lá mas já era tarde demais para o conseguir. 
Ainda assim tirei algumas fotografias interessantes.





Acho linda esta conjugação de xisto e paredes caiadas.



O anilado do céu e a lua em crescente.




Enquanto observava o cair da noite, sentada nos degraus do pelorinho, fui petiscando o meu farnel e ainda fiz uma tentativa de sketching noturno. 


Difícil, muito difícil.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Avieiros do Tejo

Gosto de viajar.
Não é preciso ir muito longe, basta ir.
As probabilidades de descobrir algum sítio "novo" são imensas e mesmo os lugares revisitados têm outros encantos.

Para variar atravessei o Tejo na ponte de Vila Franca e logo depois virei para norte pelos caminhos agrícolas.
Uma estrada estreita, na larga lezíria, ao longo do rio.
Mal entrei em Salvaterra de Magos segui as indicações para Escaroupim.

Ia na senda do cais palafítico de uma das últimas aldeias de pescadores do Tejo, os avieiros, assim chamados porque descendem de comunidades de pescadores que vieram da Praia de Vieira, no início do século XX, à procura de melhores condições de vida.








Muito difícil, para mim, é pintar a água. Desde a cor aos reflexos passando pelo brilho, nada se parece.
Ainda assim gosto deste sketch e, sobretudo, de ir conseguindo superar, a pouco e pouco, os desafios que me proponho.



Voltei com vontade de reler o livro Avieiros de Alves Redol.


quinta-feira, 30 de junho de 2016

Pinhal na Beira com Eira


Na Beira, ir ao pinhal até à eira passando pelo antigo pombal, é um passeio obrigatório desde a minha infância...


 

A eira são umas grandes e planas pedras de granito, abundante nesta região, onde se secam as espigas de centeio e as maçarocas de milho no final do verão.

Avanço pelos caminhos, agora mais largos devido à passagem de tractores.
Chego ao pombal que mal se avista no meio de tanto mato.
Depois de um sketch rápido feito em pé, continuo na direcção que a minha memória guardou mas sem pontos de referência visíveis.
Finalmente vislumbro a parte de cima das pequenas casas, construções simples só com uma porta que julgo servirem de arrecadação ou celeiro.
Avanço pelo meio das ervas altas e chego ao pequeno planalto com vista de longo alcance a toda a volta.
São sete horas da tarde e as lajes ao sol ainda estão bem quentes.
A luz do fim da tarde é maravilhosa.

Espreito todos os cantos e fotografo as redondezas.
Para me sentar e desenhar, decido subir a umas pedras enormes, redondas, onde se espraiam as sombras de alguns pinheiros. 
Para tal faço um pequeno corta-mato com a ajuda de uns paus para afastar as silvas e as ervas, tateando o chão que não vejo, para evitar cair ou torcer um pé nalgum buraco. Chego sã e salva ao outro lado sem me lembrar entretanto que no meio de toda aquela vegetação podia ter deparado com alguma cobra...

Já sentada e tendo observado tudo o que me rodeia, fecho os olhos para sentir e ouvir melhor.
Há cães a ladrar ao longe, piares de vários e diferentes pássaros, mais perto o balir de ovelhas invisíveis. 
Há aromas de terra quente, de erva seca, de pinheiros e outros cheiros do campo que não identifico.
O sítio é isolado. No meio da natureza mais ou menos selvagem estou em paz embora em estado de alerta, afinal sou uma mulher da cidade.

O sol vai descendo devagar enquanto desenho e pinto neste Diário Gráfico.
De vez em quando uma restolhada faz-me virar a cabeça noutra direcção, inutilmente.
Oiço um tractor a aproximar-se. Fico expectante de o ver aparecer, todavia parece ter parado na eira atrás das casas.
Arrumo as minhas coisas na mochila e regresso ao caminho, dando a volta à eira pelo carreiro debaixo.
O tractor afasta-se agora no sentido de onde veio, o mesmo para onde retorno, por isso não chegámos a cruzar-nos, nem sequer a ver-nos. No entanto, eu dei bem conta da sua presença ao passo que ele, de certeza, ignorou a minha.

Sigo devagar recolhendo algumas flores e folhas para secar.
Falho uma bifurcação e acabo por encontrar a estrada mais à frente, não muito longe do meu ponto de partida.





Os rabiscos não ficaram muito bons, mas o tempo vivido neste lugar é de boas memórias.





domingo, 26 de junho de 2016

Dentro das Muralhas no Castelo de Arraiolos

Terminado o encontro dos Évora Sketchers em Arraiolos despedi-me do grupo desejosa de subir ao ponto mais alto da vila e entrar no espaço dentro das muralhas.
Adoro os dias grandes desta época do ano.
Eram quase seis da tarde e ainda tinha muita luz para desenhar e fotografar.

















O castelo-paço, actualmente em ruínas, foi utilizado em longas temporadas por D. Nuno Álvares Pereira, segundo Conde de Arraiolos, fronteiro-mor do Alentejo e Condestável de Portugal. 
Famoso por comandar forças em número inferior ao inimigo e ganhar todas as batalhas graças ao seu génio militar, tornou-se o terror dos castelhanos no final do século XIV.